Os rituais funerários funcionam como lembretes de nossa condição mortal;
nosso tempo aqui é limitado e é preciso fazer o que temos a fazer agora. Tais
rituais permitem um contato com o mundo espiritual e nos lembram que, assim como
viemos,
um dia partiremos. Tal reconhecimento e aceitação da mortalidade parecem
perdidos na vida contemporânea. Uma das falhas dos movimentos psicológicos
atuais relaciona-se em reconhecer que os processos de transformação estão
fadados a cessar um dia.
Todos os rituais e sacramentos são, de certo modo, maneiras e atos com a
finalidade de nos preparar para a verdade inevitável de que "os desastres
acontecem" - certas merdas são inevitáveis. A maioria deles é
relativamente insignificante quando comparada à morte, mas um dia todos teremos
que fazer nossa viagem para o Além. Se compreendermos em vida nossa posição
no universo, que somos apenas breves momentos de uma espiral infinita, ficará
tudo mais fácil para vivenciar. Os símbolos indígenas são quase todos
circulares; não tem começo ou fim. E quando um dos mojaves parte, dizem que
"ele agora está livre para novamente escolher o que desejava ser".
Esses rituais fúnebres - velório e cremação - corroboram o valor das antigas
tradições: todos que participam dele sabem que ali também vão terminar seus
dias. Acho que é muito mais confortável acostumar-se em vida com o local de
nossa morte. A tradição dos mojave ensina que os mortos continuam a existir em
outra dimensão da Vida.
Os Mojaves são uma pequena tribo, estabelecida nos arredores de Parker,
Arizona, e sempre foram relutantes em falar sobre a morte e o renascimento; pois
os poucos rituais remanescentes que ainda são preservados e cuidadosamente
transmitidos apenas por via oral, ficam restritos "aos mojaves". Para
os Mojave, o fim representava o fim; não havia sentido em deixar amrcas
individuais para a posteridade. Retornava-se à terra, a fonte eterna, para
tornar-se parte dela e nutrir as gerações vindouras. As vidas anteriores,
assim como a terra, constituíam uma dádiva para as gerações ainda não
nascidas e a
ligação com o cemitério e com os ancestrais nele enterrados ajudava a
prevenir desastres. Hoje tem-se um velho cemitério mojave que consiste numa
planície coberta de pedras com umas poucas lápides... nos velhos tempos elas
jamais existiriam. As cinzas que sobravam da cremação eram enterradas, sem
qualquer identificação.
De modo geral, portanto, essa tribo encara a morte como "mais um aspecto do
ciclo da vida". À semelhança dos mitos da criação de outras religiões,
morte e renascimento integram um círculo infinito que os religa a ancestrais
sobrenaturais, tais como Matavilya e Matamho, que criaram o rio Colorado,
produziram a Luz, e moldaram a terra, dividindo os mojaves em clãs. Assim, os
mojaves acreditam que quando morremos o espírito fica livre e prossegue sua
viagem ao mundo espiritual para reunir-se com todos os seus ancestrais; os vivos
não devem interferir nessa passagem. O corpo é apenas um veículo do espírito,
um lembrete da vida terra. Se não for cremado, torna-se um vínculo pesado com
o mundo material que dificulta a viagem do espírito.
Por isso, quando alguém morre, os parentes e amigos devolvem todos os seus
pertences e posses à terra. Brinquedos, fotos, presentes e roupas são
queimados e o nome do falecido não é mais pronunciado. Após o ritual de velório
mojave,
ninguém mais verte lágrimas pelos entes queridos que partiram. As lágrimas
tornariam o espírito pesado e dificultariam sua viagem. Os Mojave sempre
queimam seus mortos com a cabeça para o Sul. A família cuida do corpo do morto
à velha maneira; após uma elaborada cerimônia, este é cremado. Durante as
duas noites que precedem a cremação, membros da comunidade mojave reunem-se na
casa do velório, um edifício branco ao lado do cemitério. O caixão repousa
sobre uma plataforma central elevada; os membros da tribo depositam ali pequenas
lembraças daquele que partiu, junto ao seu corpo, e um a um, falam com ele.
Assim, diversas 'testemunhas' atestam os aspectos bons de sua personalidade,
porque os mojave acreditam que "os maus aspectos e fracassos, frutos da
existência terrena", devem ser esquecidos. O morto só é lembrado por sua
bondade, ficando livre para reencontrar-se com os ancestrais em harmonia
espiritual.
Lágrimas inundam a casa do velório. Os cantos rítmicos e os suaves lamentos
de fundo fazem lembrar aquele que partiu; o pai deste desempenha a tarefa ritualística
de remover os sapatos do morto. Ao amanhecer, amigos, familiares das tribos
quechan, coopah e maricopa veem de suas aldeias tomar parte no ritual. Os
portadores da mortalha levantam-se. Os carregadores do caixão levantam o ataúde
da plataforma. Lá fora os cantores conduzem a procissão. Quando todos saem do
recinto, os cantores param e voltam-se em direção ao leste para saudar o sol
nascentes. E continuam a caminhada ao som do canto e dos chocalhos. Detem-se,
mais uma vez, para contemplar o norte, uma para contemplar o oeste e outra para
contemplar o sul - cada parada visa recordar ao que partiu as direções que
experimentara em vida, e a comunicar ao mundo espiritual que ele reencontraria
essas direções em sua jornada espiritual.
Chegando ao local do enterro, o morto é retirado do ataúde e colocado em uma
cova delimitada por toras de madeira que formam uma pira funerária de dois
metros de comprimento, por 1,20m de largura. A pira assemelhava-se a uma pirâmide
truncada. Os cantores permanecem a 3mt de distância, contemplando o brilhante
disco solar que ascende no horizonte; os outros participantes formam um círculo
a dez metros de distância da pira.
A pira é coberta com mais de 30 panos, lençóis e cobertores coloridos,
destinados a proteger àquele que parte em sua viagem. Seus brilhantes matizes,
semelhantes ao arco-íris, segundo me disseram, simbolizavam as cores da própria
vida. Os velhos brinquedos do defunto são devolvidos, empilhando-se na pira. Os
amigos e familiares conservam apenas umas poucas lembranças : a maioria de suas
posses é acrescentada à pilha, a fim de que "aquele que partiu"
fique totalmente livre deste mundo, para poder embarcar em liberdade para a
viagem ao outro mundo. A concepção mojave de posse desconhece testamentos,
inventários e reivindicações.
Os cantores recuam, e um membro da tribo coloca fogo nos 4 cantos da pira. Os
companheiros hoje retiram peças de roupa, blusas, vestidos, e lentamente
caminham em direção à fogueira recém-acesa, atirando nela suas roupas. Nos
velhos tempos teriam cortado os cabelos e ficado totalmente nus. Depois disso,
retornam ao círculo, ritmicamente iniciam uma dança de passos laterais em
redor das labaredas ao compasso dos cantos. Os cantores se aproximam e lançam
seus chocalhos às chamas. Tudo o que diz respeito ao morto na vida terrena
precisa ser consumido.
Muitas vezes as chamas chegam a atingir a altura de quase sete metros. E todos
assim são ungidos por chuvas incandescentes de fragmentes de tecido colorido, e
sentem, em si, a presença do falecido. Dançam até as chamas se extinguirem.
Então, o círculo se divide: uma parte passa a se mover em sentido horário; a
outra metade no sentido anti-horário. Os participantes apertam-se as mãos e
dirigem-se então aos bancos para apertar a mão dos familiares do morto
sentados.
Pouco depois retiram-se todos da cerimônia, silenciosamente, atrás dos
familiares. O choro acaba. Terminados os ritos fúnebres, um silêncio
estarrecedor passa a reinar. O fogo continua a arder silenciosamente por um dia
e uma noite, e então as toras inclinadas para dentro cedem e as cinzas
preenchem a cova. Na manhã seguinte, basta uma fina camada de terra para cobrir
o buraco.
Todos os mestres da Cura pela Dança que conheci habilitavam seus pacientes a
edificar pontes sobre os abismos do desconhecido e dos mistérios da existência.
Embora lidassem diretamente com a morte e participassem nos rituais fúnebres de
transição, imediatamente encerrados este, retomavam a tarefa de viver.
Porque, para os Mojaves, os vivos devem simplesmente VIVER.
Fonte: A dança dos curandeiros - Carl A.
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