| O Home, O Mito: Joseph Campbell |
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| Written by Nami | |
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O
homem, o mito Ao
ouvir o chamado, ele largou a vida que levava e embarcou em uma jornada de
transformações. A história de Joseph Campbell é a de todos nós por
Andréa Kurachi e Rodrigo Vergara | montagem sobre reproduções de fotos extraídas
do livro A Jornada do Herói, editora Ágora Nosso
herói aparece pela primeira vez aos 5 anos de idade. Seu nome é Joe e ele está
com o pai em um show da companhia de Buffalo Bill, o lendário explorador de
fronteiras americano. Era um espetáculo tradicional. Uma vez por ano,
cavaleiros, atiradores e guerreiros índios transformavam em uma pradaria o
Madison Square Garden, em Nova York, e encenavam batalhas do Velho Oeste. Mas o
que chamou a atenção de Joe não foram os heróis brancos, mas os
peles-vermelhas. O menino ficou tão fascinado pelos indígenas que começou a
ler tudo o que encontrava sobre eles. E assim foi por toda sua vida. De livro em
livro, de história em história, de tribo em tribo, Joseph Campbell
transformou-se em um dos maiores estudiosos de mitos. Casou-se, viveu feliz e
morreu. Fim da história. Fim
da história? Muito pelo contrário. Um dos maiores méritos de Campbell foi
ensinar como se conta uma história emocionante, tão emocionante quanto a nossa
própria vida. É justo, portanto, que a história dele também seja contada
como merece. Se
estivesse vivo, Campbell teria comemorado 100 anos em março último. Mas mesmo
sem sua presença (ele morreu em 1987) a celebração foi grande, graças à
fama que o estudioso alcançou, principalmente por causa do programa de TV O
Poder do Mito, uma compilação de várias entrevistas que deu ao jornalista
Bill Moyers ao longo dos últimos anos de vida. Nessas conversas (também
editadas em livro), Campbell resume em linguagem simples e direta todo seu
pensamento sobre mitos. Faz analogias entre diferentes narrativas religiosas e
fala sobre o mito, os heróis, as deusas e o sagrado no mundo de hoje. A idéia
central do pensamento de Campbell é que os mesmos mitos estão por trás de
todas as histórias. Eles apenas assumem roupagem diferente conforme a cultura
local. Ou seja, todos os deuses são um só, apenas com máscaras diferentes.
Todos os heróis são o mesmo, com várias faces. O programa foi um sucesso. A
fama veio apenas no final da vida, mas Campbell já havia publicado vários
livros. Um deles, O Herói de Mil Faces, serviu de inspiração para George
Lucas, o criador de Guerra nas Estrelas. "Ele é realmente um homem
maravilhoso e tornou-se meu Yoda (o personagem sábio de Guerra nas
Estrelas)", disse o cineasta no discurso em homenagem a Campbell, em 1985. Lucas
conta que passou anos tentando escrever um conto de fadas moderno. Pesquisou heróis
clássicos e modernos, leu muito, mas só nas palavras de Campbell achou o foco
que procurava. Foi ali, disse o cineasta, que entendeu a estrutura mítica por
trás das histórias de heróis e conseguiu escrever sua saga estelar. Segundo
Campbell, em toda narrativa, de literatura ou religião, o herói cumpre uma
mesma jornada: partida, preenchimento e retorno. Primeiro ele recebe um chamado
que não pode recusar. Em seguida, parte em uma busca, ao longo da qual enfrenta
inimigos e desafios que fazem com que passe por transformações. Quando cumpre
sua tarefa, volta para dividir a dádiva recebida com seu povo. É o que faz o
personagem de George Lucas, Luke Skywalker. A
jornada de Joe Em
A Jornada do Herói, Campbell descreve como é o caminho até a dádiva, realização
que ele chama de bem-aventurança. "Siga sua bem-aventurança até lá,
onde há um profundo sentido do seu ser, lá onde seu corpo e sua alma querem
ir. Quando você alcançar essa sensação, fique aí e não deixe ninguém
arrancá-lo desse lugar. E portas se abrirão onde você nem sequer imaginava
que pudesse haver algo." Para
Campbell, sempre que seguimos esse chamado da alma, que buscamos o
preenchimento, que saímos em busca do lugar onde nos sentimos inteiros, estamos
tomando o caminho dos heróis. Mesmo que a escolha não pareça certa ou a mais
feliz, seguir o chamado é a atitude correta a tomar, diz ele (leia texto
abaixo). Senão, corremos o risco de um dia, em uma daquelas crises de
maturidade, descobrir que encostamos nossa escada na parede errada. Parece
auto-ajuda? Talvez, mas para Campbell há mais que palavras aí. Ele mesmo ouviu
esse chamado (no show de Buffalo Bill) e escolheu segui-lo. Mas o impulso
inicial não basta para a vida toda. Ao longo da existência, outras decisões
foram necessárias. E em muitas delas ele procurou a voz que chamava para a
bem-aventurança. Ou seja, Joe também foi um herói genuíno. E o que você vai
ler a seguir é a história do herói Campbell. Super
Campbell Ainda
jovem, nosso herói estudava literatura medieval na Universidade de Colúmbia,
em Nova York, com uma tese sobre as lendas do ciclo do rei Artur. O caminho era
promissor. Mas eis que ele ganha uma bolsa de estudos para morar dois anos na
Europa. E lá foi ele em um novo rumo: primeiro Paris, depois Munique, entre
1927 e 1929. O clima de vanguarda e boemia da Europa contrastava com a vida acadêmica
nos Estados Unidos, e ali descobriu Thomas Mann, James Joyce, Carl Jung e
Sigmund Freud. Dizia ele que esse encontro foi crucial para compreender que
sonhos, artes e mitos falam sobre a mesma coisa. E que o estudo da mitologia
seria muito melhor se ultrapassasse o mero circuito acadêmico. Foi quando sua
cabeça se abriu para enxergar outra dimensão do mito. Retornou
em 1929 para a Universidade de Colúmbia com novas idéias, mas seu orientador não
quis saber daquele papo de "minha mente se abriu". Sua bem-aventurança
tinha um obstáculo pela frente. Aliás, dois: a Bolsa de Nova York havia
acabado de quebrar e não havia trabalho. Numa saga heróica, esse seria o
momento em que o mocinho pára, pensa, entra em crise e, depois de quase
esmorecer, retoma sua jornada (no cinema, isso em geral acontece ao som de uma música
empolgante). Foi
o que aconteceu. Desiludido com a carreira acadêmica, Campbell passou anos em
crise, procurando emprego, tentando escrever um romance, depois viajando pelos
Estados Unidos. Até que, sem rumo, enfiou-se em uma cabana no meio da floresta
em Woodstock, onde passou anos lendo e escrevendo. Desenvolveu seu próprio método
de estudo, que chamava de leitura orgânica. Funciona assim: se um autor diz
algo a você, leia tudo o que ele escreveu e depois tudo o que essa leitura o
inspirar. "Um livro leva a outro", dizia. Aprofundou
o estudo dos autores que tinha conhecido na Europa e saiu do período de hibernação
já com os conceitos que anos depois aparecem em seus livros. O
encontro com a deusa Depois
de tentativas frustradas de escrever contos e de sobreviver lecionando línguas,
Campbell foi convidado para lecionar literatura comparada e mitologia na
Faculdade Sarah Lawrence. Num filme épico, a cena seria invadida por uma música
alegre, vitoriosa. Sarah Lawrence era uma faculdade para moças, em que os
professores elaboravam os cursos conforme o interesse de cada aluna. Mas a
alegria musical logo ganha acordes dissonantes, inquietantes. Nosso herói fica
apreensivo: as alunas não se contentavam em aprender apenas a teoria dos mitos.
Elas queriam saber o significado deles para a vida. Suspense. Campbell foi
obrigado a ver a mitologia de um outro ponto de vista, o feminino. E trazer os
mitos para a vida cotidiana. Um desafio e tanto, que ele venceu estudando. Ele
foi professor da Faculdade Sarah Lawrence por 38 anos. Mas
toda saga que se preza também tem romance. Na faculdade, Campbell apaixonou-se
por uma aluna, Jean Erdman. Quando ela deixou a faculdade para viajar pelo mundo
com a família, ele lhe deu um livro, esperando que ela o lesse na viagem e, na
volta, tivesse ao menos um motivo para reencontrá-lo. Deu certo. Os dois se
casaram em 1938, assim que Jean retornou. Durante 50 anos de casamento, cada um
construiu sua própria carreira (ela era bailarina), mas inspirado pelo trabalho
do outro. Ele trouxe os mitos para as criações dela em dança. E ela o
aproximou ainda mais do mundo das artes. Campbell
diz que, na linguagem mitológica, a mulher representa a totalidade do que pode
ser conhecido - e o herói é aquele que vem para conhecer. "À medida que
ele progride na lenta iniciação que é a vida, a forma da deusa vai sofrendo
transformações: ela nunca será maior que ele próprio, embora possa sempre
lhe prometer mais do que ele é capaz de compreender." Fim
do primeiro episódio. A
dádiva O
segundo episódio da saga começa com um daqueles longos letreiros explicativos
típicos de Guerra nas Estrelas, mas falando sobre a obra de Campbell. Ali somos
informados de que, nos anos de retiro em Woodstock e depois, lecionando, ele
reuniu vários escritos. Mas nada organizado para ser publicado. Somente em 1944
publicou seu primeiro livro, A Skeleton Key to Finnegans Wake, uma análise de
Finnegans Wake que virou referência para entender a obra de James Joyce, um dos
autores que mais influenciaram o mitólogo. Em seguida, começou a escrever O
Herói de Mil Faces, um dos temas que lecionava. Demorou cinco anos nesse
trabalho, mas o manuscrito foi rejeitado por duas editoras. Somente em 1949
conseguiu publicar a obra, que fez sucesso e deu o impulso inicial em sua
carreira de escritor. Ele
continuou publicando livros sobre mitologia, mesmo criticado por outros mitólogos
que julgavam suas teorias muito simplistas. Os críticos diziam que, ao comparar
mitos, ele atropelava as diferenças. Mas, enquanto a academia torcia o nariz, o
público se interessava cada vez mais pelo que dizia. Desde os músicos do The
Grateful Dead até a coreógrafa Martha Graham. Sua
influência foi mais notável, no entanto, no cinema. Steven Spielberg e George
Miller, assim como George Lucas, usaram a estrutura dos mitos de Campbell em
seus filmes. Depois do sucesso de Guerra nas Estrelas, porém, o que deveria
servir como inspiração virou distorção na indústria do cinema. Hollywood
transformou sua teoria sobre a jornada do herói em uma fórmula simplista para
ensinar roteiristas a fazer uma boa história. As
idéias de Campbell pareciam destinadas ao sucesso. E foi por meio da tela, mas
da telinha, que veio a fama, com o lançamento de dois livros/vídeos sobre sua
vida e obra: O Poder do Mito e A Jornada do Herói, produzidos e lançados quase
no mesmo ano. Em A Jornada do Herói, Phil Cousineau organiza trechos de
entrevistas e seminários em que o mitólogo aparece respondendo a perguntas
sobre mitologia e a relação com sua vida pessoal. Segundo Ana Figueiredo,
representante da Fundação Joseph Campbell no Brasil, a importância do mitólogo
é mostrar que religião é metáfora, não fato literal, histórico. Assim ele
abre uma porta para a aceitação do outro, ao invés da intolerância. Todo
povo é o escolhido e os diferentes deuses são máscaras de um mesmo deus. Fim
dos letreiros. O segundo episódio afinal começa. Campbell-Yoda
Nosso
herói agora é um velho sábio. Mas não daqueles que falam por metáforas,
melhor que isso: ele explica as metáforas que todos os sábios usaram antes.
Seguindo à risca a jornada do herói que ele mesmo criou, agora é hora de
dividir suas conquistas com seu povo. "Seja em uma grande metrópole
moderna, seja nas cavernas", diz Campbell, "viver é passar pelos
mesmos estágios da infância à maturidade sexual, a transformação da dependência
em responsabilidade, o casamento, a decadência física, a perda gradual das
capacidades e a morte". Ou seja, as pessoas têm o mesmo corpo, as mesmas
experiências corporais, os mesmos anseios. Por isso reagem às mesmas imagens,
aos mesmos mitos. Ele
dá o exemplo da imagem da águia e da serpente, presente em várias civilizações.
Ela representa o conflito entre a serpente, ligada à terra, e a águia, cujo vôo
representa o lado espiritual. Quando elas se fundem, temos o dragão, ou a
serpente com asas, que encontramos nos mitos de quase toda religião, como o
dragão celestial dos chineses e a serpente emplumada dos astecas. A yoga tem
uma alegoria parecida: a kundalini, energia vital, é representada por serpentes
entrelaçadas em espiral que ligam os chacras mais baixos, mais próximos da
terra e dos instintos, aos mais altos, em direção ao céu e a espiritualidade.
E
para que serve saber isso tudo? Para entender a própria existência. Ao
entender a estrutura mítica, diz nosso herói, o indivíduo tem uma chave para
entender sua sociedade, outros povos e a própria vida - não como um
acontecimento isolado, mas sim como uma vivência que segue os mesmos rituais de
gerações passadas e futuras. A jornada do herói é a jornada de cada um.
Sobem os créditos. O
que é bem-aventurança Conceito
central no pensamento de Campbell, a bem-aventurança, diz ele, está naquilo
que nos enche de satisfação e entusiasmo e dá aquele sentimento de estar
realmente vivo. E essa busca não é o mesmo que ir atrás de felicidade. Pelo
contrário: a jornada tem sofrimento, armadilhas e monstros terríveis. Mas é o
que vai fazer, enfim, o herói completar sua transformação para encontrar a dádiva
final. Ulisses, o herói da Odisséia, não sai em uma jornada de aventuras
porque é a opção que lhe parece a mais feliz. Pelo contrário, ele só parte
porque não consegue evitar - ele até finge estar louco para ver se escapa. No
final não consegue evitar o chamado, deixa a vida feliz e a amada Penélope
para sair em uma longa viagem. Só depois de enfrentar ciclopes, sereias e
outros tantos perigos e tentações volta vitorioso para os braços da fiel Penélope.
Para
saber mais A
Jornada do Herói, Editora Ágora O Poder do Mito, Editora Palas Athena Fundação Joseph Campbell, www.jcf.org
Fonte: http://vidasimples.abril.com.br/livre/edicoes/017/04.shtml |
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